Mercado Externo

Diesel sob pressão: conflitos reduzem estoques e elevam risco de uma nova crise global

10/08/2026 5 min de leitura

Interrupções no Estreito de Ormuz e danos a refinarias restringiram as exportações de importantes regiões produtoras. O preço internacional do diesel já subiu quase 40% desde a mínima registrada em junho.

Bloomberg Línea — Publicado em 9 de agosto de 2026, às 17h01.

O mercado global de diesel enfrenta um período de forte pressão, provocado pela combinação entre conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, redução dos estoques e aumento esperado da demanda no Hemisfério Norte.

As interrupções no Estreito de Ormuz, os danos provocados em refinarias do Golfo Pérsico e os ataques ucranianos contra instalações russas afetaram as exportações de regiões que, juntas, responderam por aproximadamente um terço das vendas globais de diesel no ano passado.

O cenário preocupa principalmente a Europa, que possui capacidade de refino limitada e depende de importações para atender ao consumo interno.

Estoques estão abaixo das médias sazonais

Os estoques de diesel nas principais regiões consumidoras diminuíram nos últimos meses e permanecem abaixo dos níveis normalmente registrados para esta época do ano.

Na Europa, a queda foi mais acentuada. Os estoques recuaram cerca de 30% desde o fim de março, aumentando a vulnerabilidade do continente diante da aproximação do inverno.

O diesel é utilizado em setores essenciais, como transporte de cargas, construção civil, indústria, agricultura e aquecimento. Por isso, uma eventual escassez pode afetar não apenas os preços dos combustíveis, mas também os custos de frete, alimentos e outros produtos.

Preço do diesel avança mais que o petróleo

A valorização do diesel tem sido significativamente superior à do petróleo bruto.

Na ICE Futures Europe, uma das principais referências internacionais para o combustível, o preço subiu quase 40% em relação à mínima registrada em 18 de junho. No mesmo período, o petróleo Brent avançou aproximadamente 5%.

A diferença indica que o principal problema está concentrado nos derivados, especialmente na capacidade de refino, na disponibilidade de estoques e na logística de distribuição.

Mesmo que as cotações do petróleo permaneçam relativamente estáveis, a alta do diesel pode gerar pressão inflacionária devido à sua importância para o transporte e para a atividade econômica.

Conflitos afetam oferta de grandes exportadores

As sanções contra produtos refinados russos continuam limitando o acesso de diversos mercados ao diesel proveniente da Rússia. Restrições adicionais da União Europeia também dificultam a entrada de combustíveis produzidos a partir de petróleo russo em outros países.

Ao mesmo tempo, os ataques contra refinarias russas reduziram a capacidade de exportação do país e aumentaram a necessidade de preservar o abastecimento doméstico.

No Oriente Médio, os riscos relacionados ao Estreito de Ormuz e os danos a instalações de refino também restringiram a oferta disponível no mercado internacional.

A região é estratégica para o comércio global de energia, e qualquer interrupção prolongada pode elevar custos de transporte e aumentar a disputa por cargas de diesel.

Estados Unidos e Ásia podem reduzir exportações

As refinarias norte-americanas aumentaram as exportações de combustíveis destilados, categoria que inclui o diesel. Parte relevante dessas cargas foi direcionada à Europa.

Esse movimento, porém, pode perder força nos próximos meses. Com a chegada do inverno, os Estados Unidos tendem a priorizar o atendimento da própria demanda, especialmente nos estados da Costa Leste, onde o diesel também é utilizado para aquecimento.

As refinarias asiáticas enfrentam situação semelhante. A expectativa de aumento do consumo regional pode reduzir o volume disponível para exportação.

Além disso, algumas usinas de geração de energia da Ásia podem recorrer mais ao diesel por causa das dificuldades para obter gás natural liquefeito, afetado pelas tensões no Oriente Médio.

Europa é a região mais vulnerável

A necessidade de recompor estoques antes do inverno deve aumentar a disputa internacional por cargas de diesel.

A Europa tende a ser a região mais exposta, mas outros mercados deficitários, como África e América Latina, também podem enfrentar maior concorrência pelo combustível produzido na Bacia do Atlântico.

A intensidade da pressão dependerá de alguns fatores, como as temperaturas durante o inverno, a capacidade de processamento das refinarias, a evolução dos conflitos e o volume de diesel que a China disponibilizará para exportação.

Apesar dos sinais de alta, ainda há algumas semanas até o início do período de compras mais intensas para o inverno europeu. Esse intervalo poderá permitir a recomposição parcial dos estoques, caso não ocorram novas interrupções relevantes na oferta.

Possíveis efeitos para o Brasil

Para o Brasil, a restrição global do diesel pode elevar o custo de importação e aumentar a volatilidade dos preços domésticos, especialmente porque o país ainda depende de compras externas para complementar a oferta nacional.

Uma disputa maior por cargas dos Estados Unidos, da Índia e de outros fornecedores pode encarecer o frete e o próprio produto importado. Esse efeito tende a ser relevante para o transporte rodoviário, para o agronegócio e para setores industriais que utilizam o diesel em suas operações.

A situação também reforça a importância de acompanhar os estoques, a disponibilidade das refinarias, as rotas marítimas e a evolução das sanções sobre os produtos russos.

O mercado ainda não enfrenta necessariamente uma escassez imediata em escala global, mas a combinação entre estoques baixos, demanda sazonal e conflitos prolongados aumenta o risco de preços elevados nos próximos meses.

Fonte: Bloomberg Línea.

Últimas publicações

Conteúdo baseado em fontes públicas como ANP, CEPEA/Esalq, Banco Central, EIA, Petrobras e IBGE.