Panorama de Agosto de 2026
Quanto o Brasil Importa de Cada Combustível
O diesel é o combustível mais dependente de importação no país. Aproximadamente 30% de todo o diesel consumido no Brasil vem de fora, número que já chegou a bater entre 30% e 35% durante o auge da crise entre Rússia e Irã.
A gasolina tem uma dependência bem menor: cerca de 10% do consumo vem de importação. Essa diferença existe principalmente porque a gasolina brasileira é misturada obrigatoriamente com etanol, produzido internamente, o que reduz a necessidade de trazer o produto de fora. O diesel não tem esse "colchão" doméstico equivalente.
Contexto de fundo
O Brasil produz mais petróleo bruto do que consome, mas isso não resolve o problema, porque o parque de refino nacional é insuficiente e está desalinhado com o tipo de petróleo que o país extrai. Mesmo operando quase no limite máximo — as refinarias da Petrobras rodam com Fator de Utilização (FUT) em torno de 96% a 97%, praticamente sem capacidade sobrando — ainda não é suficiente para suprir toda a demanda interna de derivados.
De Onde Vem o Combustível Importado: Uma Mudança Rápida de Cenário
Até junho de 2026: a Rússia dominava
Durante boa parte do primeiro semestre de 2026, a Rússia se tornou a principal fornecedora de diesel para o Brasil, chegando a responder por até 90% a 91% das importações desse combustível em abril.
Isso aconteceu porque a guerra entre Estados Unidos e Irã bloqueou rotas tradicionais de fornecimento no Oriente Médio, forçando o Brasil a buscar alternativas. A Rússia, com combustível disponível a preços descontados por conta das sanções ocidentais que já a isolavam de outros mercados, aproveitou essa brecha.
Julho e agosto de 2026: virada abrupta
O cenário mudou radicalmente em poucas semanas. A Rússia decidiu estender seu próprio veto às exportações de diesel e gasolina até 31 de janeiro de 2027 — medida de proteção interna, motivada por ataques de drones ucranianos que danificaram refinarias russas e geraram desabastecimento dentro do próprio país. A Rússia parou de exportar não por causa do Brasil, mas por necessidade própria de garantir combustível para seu mercado doméstico.
O impacto foi imediato
A participação russa nas importações brasileiras de diesel despencou para menos de 15% já em julho. Dois novos players entraram para preencher esse vazio:
🇺🇸 Estados Unidos assumiram a posição de principal fornecedor, com projeções indicando que devem responder por cerca de 80% do diesel importado pelo Brasil daqui para frente. Essa é uma mudança estrutural relevante, porque conecta ainda mais o preço do diesel brasileiro às cotações do ULSD americano — a referência de diesel negociada na bolsa NYMEX.
🇮🇳 Índia também ganhou espaço importante nesse novo arranjo. As refinarias indianas de Jamnagar e Vadinar — complexos gigantes de refino, entre os maiores do mundo — embarcaram 2,8 milhões de barris para o Brasil em julho, o maior volume em 11 meses. A Índia processa petróleo russo barato, que ainda pode comprar diferentemente de países ocidentais sob sanções, e refina para revender aos mercados que precisam, incluindo o Brasil.
Os Eventos Que Estão Movendo Esse Tabuleiro
Guerra Estados Unidos-Irã (fevereiro a junho de 2026) Cortou rotas de fornecimento do Oriente Médio e elevou o preço do petróleo Brent, a referência internacional mais usada. Foi justamente esse corte que empurrou o Brasil para depender fortemente do diesel russo durante esse período.
Cessar-fogo (14 de junho) Trouxe algum alívio ao mercado, com o preço do petróleo chegando a cair. Mas o acordo se mostrou frágil: novos ataques voltaram a ser registrados já em julho, mantendo um clima de instabilidade sobre o quanto esse alívio vai durar.
Veto russo de exportação (8 de julho, estendido até janeiro/2027) Anunciado de forma independente da guerra no Oriente Médio, foi motivado pelos ataques ucranianos às refinarias russas, que geraram falta de combustível dentro da própria Rússia — obrigando o país a priorizar seu mercado interno em vez de exportar.
O Papel do PPI Nesse Contexto
Mesmo com toda essa movimentação de origens de fornecimento, o PPI (Preço de Paridade de Importação) continua sendo o mecanismo de referência que influencia — ainda que não automaticamente — a precificação de combustíveis no Brasil.
Isso é importante porque, mesmo após a Petrobras ter mudado sua política formal de preços em 2023, deixando de seguir o PPI de forma automática, esse indicador continua sendo o termômetro que o mercado usa para avaliar se vale a pena importar ou não, e para antecipar pressões futuras sobre o preço doméstico.
Um Detalhe no Radar: o Frete Agrícola
Vale destacar um efeito colateral menos óbvio dessa mudança de origem dos combustíveis: o frete agrícola.
Como o Brasil trocou fornecedores — saindo da Rússia e migrando para Estados Unidos e Índia — toda a logística de transporte marítimo precisa se realocar: novos navios, novas rotas, novos contratos de frete.
Isso pode gerar competição por capacidade de transporte marítimo com outras cargas, incluindo o agronegócio brasileiro, que também depende fortemente de navios para exportar soja, milho e outros grãos.
É um ponto que o setor está monitorando de perto, porque um aumento no custo do frete marítimo em geral pode encarecer tanto a importação de combustível quanto a exportação de commodities agrícolas — dois pilares importantes da economia brasileira.
Criação e adaptação: Salespetro